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Mudar de país costuma ser associado a recomeços, oportunidades e novas possibilidades. Mas toda mudança também envolve perdas. Na experiência migratória, essas perdas podem envolver pessoas, lugares, língua, hábitos, referências culturais, relações, papéis sociais e até aspectos da própria identidade. Uma revisão sistemática publicada em 2024 na Frontiers in Psychiatry encontrou associação entre o chamado luto migratório e sofrimento psicológico, embora os pesquisadores ressaltem que a produção científica sobre o tema ainda é relativamente pequena.


O que torna esse luto particularmente complexo é que muitas dessas perdas não são reconhecidas socialmente como perdas. Quem migra pode ouvir que deveria estar feliz pela oportunidade, aproveitar a nova vida ou simplesmente ?se adaptar?. Mas é possível ter escolhido partir e, ainda assim, sentir falta. É possível reconhecer sentido na vida atual e, ao mesmo tempo, sentir saudade da família, da língua, da comida, da rotina ou de uma versão de si mesmo que existia antes da mudança. Saudade e arrependimento não são necessariamente a mesma coisa.


A psicanálise permite olhar para essa experiência para além da ideia de adaptação. A migração pode mobilizar questões relacionadas às identificações, aos vínculos e à maneira como cada pessoa constrói sua própria história. Uma publicação recente na Revista de Psicanálise da SPPA discute justamente as perdas, o processo de luto, a reconstrução da identidade e a importância de espaços que possibilitem a elaboração da experiência migratória. Nessa perspectiva, elaborar não significa apagar o passado, mas encontrar um lugar psíquico para aquilo que foi perdido e para aquilo que continua tendo significado.




Por isso, talvez seja importante perguntar: do que exatamente eu sinto falta? Da cidade? Das pessoas? Da sensação de pertencimento? De ser compreendido sem precisar explicar? De quem eu era naquele lugar? A saudade pode carregar diferentes sentidos, e poder nomeá-los permite que ela deixe de ser apenas uma sensação difusa. O objetivo não é eliminar a saudade, mas poder escutá-la e compreender o que ela representa na história de cada pessoa.


Também é importante lembrar que nem todo sofrimento relacionado à migração pode ser compreendido apenas individualmente. Condições econômicas, insegurança migratória, discriminação, dificuldades profissionais, barreiras linguísticas e isolamento social também podem afetar a saúde mental. Pesquisas recentes mostram associações entre situações de insegurança migratória e maiores níveis de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.


Elaborar o luto migratório, portanto, não significa deixar de sentir falta de casa. Pode significar conseguir reconhecer aquilo que foi perdido, preservar o que continua sendo importante e, ao mesmo tempo, investir na vida que está sendo construída. É possível sentir saudade e permanecer. É possível amar o lugar de onde se veio e encontrar pertencimento em outro lugar. A saudade não precisa ser uma prova de que a decisão foi errada. Às vezes, ela apenas revela que algo foi importante.