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Criar um filho exige muito mais do que organização, disponibilidade e amor.


Em diferentes momentos da vida familiar, pais e mães precisam de alguém que possa ajudar, ouvir, acolher, dividir uma tarefa ou simplesmente estar por perto.

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Para quem vive no mesmo país, ou na mesma cidade, em que cresceu, parte dessa rede pode existir de maneira quase espontânea. Já quando a família vive em outro país, essas possibilidades são drasticamente reduzidas. E é nesse momento que muitos pais expatriados percebem que não estão apenas criando uma criança em um novo lugar, mas, também, tentando construir uma nova rede enquanto exercem a parentalidade.



O que muda quando a família está longe?


A distância física da família extensa não significa necessariamente ausência de vínculo, pois ainda é possível manter contato por chamadas de vídeo, mensagens, fotos e encontros durante as férias. Mas existe uma diferença importante entre estar emocionalmente presente e estar fisicamente disponível.

Uma avó pode acompanhar o crescimento do neto por uma tela, mas não consegue necessariamente chegar em sua casa em uma tarde difícil. Um irmão pode ouvir suas preocupações pelo telefone, mas não pode assumir uma tarefa quando você precisa descansar. E essa diferença pode parecer pequena em alguns momentos, porém, em outros, torna-se bastante significativa. Especialmente quando a família passa por períodos de maior demanda, como o nascimento de um filho, os primeiros anos da criança, mudanças de escola, doenças ou outras transições importantes.


?Quem vai me ajudar??


Essa pode ser uma das perguntas mais difíceis para quem exerce a parentalidade longe de casa. Não necessariamente porque não exista alguma ajuda, mas porque a rede que existia anteriormente pode ter deixado de estar acessível. E isso pode gerar sentimentos como:

Para alguns pais, existe ainda uma expectativa silenciosa de que deveriam conseguir lidar com tudo.

?Eu escolhi morar aqui.?

?Nós decidimos ter filhos.?

?Então não deveria reclamar.?

Mas reconhecer que uma situação é difícil não significa se arrepender das escolhas feitas. É possível amar profundamente a vida construída no exterior e, ao mesmo tempo, sentir falta de ter pessoas próximas para dividir a parentalidade.


Quando a falta de rede começa a pesar no casal


A ausência da família extensa também pode afetar a relação conjugal. Afinal, quanto não há quem possa ajudar, muitas tarefas que antes poderiam ser distribuídas entre diferentes pessoas acabam concentradas no casal. E, com o aumento da demanda, pequenas diferenças podem ganhar uma dimensão maior.

Quem acordou mais vezes durante a noite?

Quem ficou responsável pela criança enquanto o outro trabalhava?

Quem organizou a consulta?

Quem percebeu que determinada roupa já não serve?

Quem planejou a alimentação?

Quem conseguiu descansar?

Essas perguntas podem aparecer em discussões que parecem ser sobre tarefas, mas que também carregam outras necessidades:

?Eu estou sozinho nisso??

?Você percebe o quanto estou cansado??

?Posso contar com você??

?Existe espaço para mim nessa família também??

Por isso, quando a rede externa diminui, pode ser necessário que o casal reorganize conscientemente sua divisão de responsabilidades, em vez de depender apenas de acordos implícitos.


A sobrecarga não é apenas física


Quando falamos sobre falta de rede, é comum pensarmos primeiro nas tarefas práticas. Mas existe uma dimensão menos visível: a carga mental e emocional da parentalidade: lembrar dos horários, antecipar necessidades, organizar compromissos, pensar no que está faltando, acompanhar mudanças no comportamento da criança, perceber quando alguma coisa não está bem, tomar decisões? E fazer tudo isso enquanto os próprios pais também estão se adaptando a uma vida longe de referências familiares conhecidas.

Quando essa carga não é reconhecida, pode surgir ressentimento. E ressentimento acumulado costuma aparecer na relação de maneiras que nem sempre parecem relacionadas à origem do problema.


?Mas eu não tenho ninguém aqui.?


Construir uma rede de apoio no exterior pode parecer muito mais difícil do que simplesmente ?fazer novos amigos?. A rede de apoio precisa ser construída de maneira gradual e, muitas vezes, intencional.

Pode envolver:

O ponto central é compreender que uma rede não nasce pronta. Ela é construída através de repetição, reciprocidade e vínculo. E talvez seja necessário permitir-se pedir ajuda antes de chegar ao limite.


Pedir ajuda não significa fracassar


Para algumas pessoas, pedir ajuda pode despertar culpa ou sensação de incompetência. Especialmente quando existe a ideia de que bons pais deveriam conseguir cuidar de tudo sozinhos. Mas parentalidade não foi feita para ser uma experiência de isolamento. Ter apoio não diminui a capacidade dos pais. Pelo contrário: uma rede suficientemente boa pode oferecer condições para que eles tenham mais recursos emocionais para exercer a parentalidade.

E isso também vale para o casal. Em vez de esperar que o outro perceba sozinho quando você está no limite, pode ser necessário aprender a comunicar necessidades de maneira mais direta.

Não apenas:

?Você nunca me ajuda.?

Mas:

?Estou muito sobrecarregada e preciso que você assuma essa parte hoje.?

A diferença parece pequena, mas pode mudar completamente a qualidade da conversa.


E quando a família que ficou no Brasil também sofre?


Existe ainda outro aspecto delicado da parentalidade à distância. Os avós, tios e outros familiares também podem sentir a ausência. Às vezes, surgem sentimentos de culpa dos dois lados. Os pais podem pensar:

?Meu filho está crescendo sem os avós por perto.?

Enquanto os familiares podem sentir:

?Estou perdendo momentos importantes da vida do meu neto.?

Essas emoções podem aparecer em encontros, despedidas, chamadas de vídeo e decisões sobre viagens. É importante reconhecer esses sentimentos sem transformar a distância em uma dívida emocional permanente. A criança não precisa carregar a responsabilidade pela distância entre os adultos. E os pais também não precisam viver a parentalidade tentando compensar todas as ausências.


Construir uma rede não significa substituir a família


Esse talvez seja um dos pontos mais importantes.

Uma nova rede de apoio não precisa ocupar o lugar da família que ficou no país de origem. Ela pode cumprir outras funções.

Uma pessoa pode ser aquela com quem você conversa. Outra pode ajudar em uma emergência. Outra pode compartilhar experiências sobre a escola. Outra pode simplesmente tomar um café com você enquanto as crianças brincam. São vínculos diferentes, construídos em um contexto diferente. E aceitar isso pode fazer parte do próprio processo de adaptação.


Quando procurar apoio psicológico?


Nem toda dificuldade relacionada à parentalidade significa que existe um problema psicológico.

Cansaço, saudade, irritabilidade e insegurança podem fazer parte de períodos de adaptação e de mudanças familiares importantes. Mas vale buscar apoio quando o sofrimento se torna persistente ou começa a interferir significativamente na vida pessoal, familiar ou conjugal.

A psicoterapia pode oferecer um espaço para compreender, entre outras questões:

No caso de famílias expatriadas, esse processo também pode ajudar a integrar a história familiar de origem com a vida que está sendo construída no novo país.


Criar uma família longe da sua família


Morar fora pode exigir que uma família reconstrua muitas das referências que antes pareciam garantidas. A rede de apoio é uma delas.

Isso pode ser cansativo, frustrante e, em alguns momentos, solitário. Mas também pode abrir espaço para novas formas de vínculo, novas relações e uma compreensão diferente sobre o que significa pertencer.

Você não precisa deixar de sentir falta da sua família para construir uma vida significativa onde está. E não precisa fazer tudo sozinho para provar que a escolha de morar fora deu certo.

Parentalidade não precisa ser uma experiência de isolamento.

Às vezes, parte da adaptação é justamente aprender a reconhecer que precisamos uns dos outros, e começar, pouco a pouco, a construir essa rede.

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E se a sua família está vivendo essa realidade?


Se a distância da família de origem, a sobrecarga ou as mudanças provocadas pela vida no exterior estão afetando a dinâmica familiar ou o relacionamento do casal, a psicoterapia pode ser um espaço para compreender essas transformações e construir novas formas de lidar com elas.


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