
Mudar de país é também mudar de referências. A língua, os costumes, as formas de estabelecer relações e até os pequenos hábitos do cotidiano podem adquirir novos significados. Mesmo quando a mudança é desejada e representa a realização de um projeto de vida, pode surgir uma sensação difícil de nomear: a de estar presente em um lugar sem se sentir inteiramente parte dele. O pertencimento não se resume a residir em determinado território. Ele envolve a possibilidade de estabelecer vínculos, compartilhar experiências e reconhecer algo de si nas relações que construímos com o mundo.
Pesquisas recentes sobre migração têm destacado a importância das conexões sociais para o bem-estar psicológico. Uma revisão sistemática publicada em 2024, que reuniu 43 estudos sobre migrantes, imigrantes e refugiados, identificou associações consistentes entre apoio social, redes de relacionamento, satisfação com a vida e bem-estar. Isso nos ajuda a compreender por que a construção de vínculos no país de destino vai além de uma questão de adaptação prática. Ter com quem conversar, compartilhar dificuldades ou simplesmente dividir experiências cotidianas pode contribuir para que a vida em um novo lugar adquira familiaridade e sentido. Ao mesmo tempo, estabelecer relações exige tempo, e a ausência de vínculos imediatos não significa incapacidade de adaptação.
Sob a perspectiva da psicanálise, a experiência migratória também pode ser compreendida a partir das perdas e transformações que ela mobiliza. Ao deixar o país de origem, não se deixam para trás apenas pessoas e lugares, mas também referências simbólicas que participavam da construção da própria identidade. A língua materna, as expressões familiares, os códigos culturais e a sensação de ser compreendido sem precisar explicar tudo fazem parte desse universo. Quando essas referências deixam de estar disponíveis no cotidiano, pode surgir uma experiência de desenraizamento. Isso não significa que a identidade se perca, mas que ela pode precisar ser reelaborada diante de uma realidade que já não responde da mesma maneira àquilo que antes parecia familiar.
É nas relações que parte desse processo encontra possibilidades de transformação. Fazer amizades, participar de uma comunidade ou encontrar pessoas com experiências semelhantes pode oferecer reconhecimento e criar novas referências afetivas. Entretanto, pertencer não significa necessariamente abandonar os vínculos com o país de origem, assim como adaptar-se não deveria exigir o apagamento da própria história. Muitas vezes, o desafio está justamente em sustentar diferentes referências culturais e afetivas, permitindo que o passado continue fazendo parte de quem se é, sem impedir a construção de novos laços. Esse movimento não acontece de forma linear: há momentos de aproximação, estranhamento, saudade e descoberta, que podem coexistir ao longo da experiência migratória.
Talvez, portanto, construir pertencimento no exterior não seja encontrar um lugar onde tudo se encaixe perfeitamente, mas descobrir relações nas quais seja possível existir sem precisar deixar de ser quem se é. Vale perguntar: em quais situações você se sente verdadeiramente acolhido? Com quem consegue falar sem precisar traduzir constantemente seus sentimentos, seus costumes ou sua história? Essas perguntas não oferecem respostas prontas, mas podem abrir espaço para reconhecer o que faz falta e o que começa a ser construído. Afinal, viver entre países também pode significar aprender a ampliar a própria ideia de casa, reconhecendo que ela não está apenas em um endereço, mas também nos vínculos que tornam possível sentir-se parte.
Referências acadêmicas:
- Song, J., Corcoran, J. e Zahnow, R. (2024; publicado em volume de 2025). The Resettlement Journey: Understanding The Role of Social Connectedness on Well-being and Life Satisfaction among (Im)migrants and Refugees: A Systematic Review. A revisão analisa 43 estudos sobre conexões sociais e bem-estar após a migração. ?
- Brance, K., Chatzimpyros, V. e Bentall, R. P. (2023). Increased social identification is linked with lower depressive and anxiety symptoms among ethnic minorities and migrants: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review. ?
- Afonso, J. D., Barros, S. e Albert, I. (2023). The Sense of Belonging in the Context of Migration: Development and Trajectories Regarding Portuguese Migrants in Luxembourg. Integrative Psychological and Behavioral Science. ?
- Gomes, A. I. e Castro-Vale, I. (2026). Da perda à reconstrução: visão psicanalítica do processo migratório. Revista de Psicanálise da SPPA. ?